Depois do silêncio, alguém teve a ousadia de assobiar.
Não foi um assobio qualquer. Foi um áudio. Um áudio com nome e sobrenome: "Sextou matilha!!! Assobio do Lobão.mp3". Harvey Maia, arauto oficial da JSM e guardião autoproclamado do bom humor de sexta-feira, soltou aquilo no grupo como quem acende uma fogueira no meio de um cemitério — e, convenhamos, cemitério era uma palavra com peso naquela aliança, porque cemitério ali não era metáfora, era campo de recuperação de contas, era o lugar de onde tudo o que parecia perdido tinha o direito sagrado de voltar dali a dois dias, subir população, subir general e reaparecer como se nada tivesse acontecido. Se havia uma lição que Fates ensinava, era essa: ninguém fica no cemitério para sempre. Nem conta, nem ânimo.
E foi assim, entre um "Sextou!" gritado por Ginno numa quinta de manhã cedo — porque para ele sexta-feira era estado de espírito, não dia da semana — e um uivo digital de Lobão em MP3, que a Lobos e a SUITs decidiram que já bastava de acomodação. O trato com a AW estava assinado, as vagas trocadas, ninguém mais precisava fingir que não queria atacar ninguém "só até resolver a papelada". Harvey já tinha discursado bonito sobre isso: parabéns a todos que lutaram, quem deu tropa, quem deu recurso, quem só ficou de moral segurando o campo, todo mundo teve seu nome gravado, avante Lobos, com direito a lobinho no fim da mensagem. O problema é que discurso bonito dura até o primeiro "cadê os inativos" aparecer no chat, e naquela aliança isso demorava, no máximo, um café.
Enquanto isso, do outro lado do tabuleiro, Luiz "FamiliaBuscapé" continuava com sua vingança pessoal contra um certo jogador apelidado de FEED — trezentos por cento de dedicação, zero por cento de perdão. "Quero ele se lascando", disse ele, e não era força de expressão: colocou o rapaz de MDF três vezes seguidas, jurou nunca sair da região enquanto tivesse vaga na ilha, e prometeu que, no dia em que conseguisse posição, "vai ser um tal de choro". Daimos, aliado de longa data, agradeceu em silêncio — finalmente sossego, sem FEED e sem a turma da BOW enchendo o saco. Luiz seguia irredutível quanto a uma única coisa: não avisava ninguém antes de atacar. "Ele já tinha uma noção do que ia receber", disse, com a serenidade de quem cobra dívida antiga.
E dívida antiga, ali, tinha nome de "orelha de baiano" também. Foi assim que Luiz batizou certo alvo desavisado, arrancando de Vitor Silva Cirilo um "maluco é brabo" que virou piada semanas depois, sempre que alguém queria elogiar (ou temer) o estilo Buscapé de resolver as coisas.
Se tem uma coisa que Ginno sabe fazer bem, além de recrutar, cronicar e perguntar todo santo dia se o Porto ganhou, é criar enquete. E no dia em que resolveu perguntar qual era o milagre mais útil do Ikariam, a aliança descobriu, entre risos, que metade dos jogadores nem sabia o que estava votando. Oito votos foram para Forja de Hefesto, sem clima para discussão — afinal, tropa forte é tropa forte. Mas Colosso e Poseidon dividiram opiniões acaloradas, e Neiva Simas, com a autoridade de quem já tinha visto muita coisa no jogo, decretou publicamente:
"acho três milagres muinto importantes: 1 Hefesto, 2 Poseidon, 3 Colosso"
— como quem lê um pódio olímpico particular.
Harvey concordou, ordem semelhante, com Bosque de Hades logo atrás na fila. Claudia Pessoa, a Andorinha, entrou no debate contando com orgulho sua contabilidade pessoal: onze cidades, seis Hefestos, quatro Poseidons, um Colosso solitário — "uma conta boa tem que ter seis Hefestos", cravou, com a convicção de quem defende tese de doutorado em templo grego. E foi então que Ginno, movido por curiosidade genuína ou por segunda taça de vinho (ele mesmo admitiu "eu tô bebendo... não deveria"), perguntou se não precisava mais rezar, já que bastava ter o templo. Claudia, irredutível, corrigiu: "ter o templo full. E pra isso, tem que rezar!"
Foi o suficiente. Ginno trocou de governo ali mesmo, no calor da conversa: "vou experimentar o sabor de Teocracia, acredito em deus." E, coerente com o novo credo, decretou que reparador e cozinheiro perdiam a graça, porque a moral cuidava de tudo — "darei lhes vinho no lugar, bêbados dormem mais rápido." Claudia avisou: viria um período de desordem e insatisfação generalizada antes da paz. "Mas depois todos vão rezar felizes." E foi mais ou menos assim, entre templo, vinho e fé recém-descoberta, que nasceu a doutrina oficial da Teocracia SUITS: reza quem quer paz, mas reza rápido, porque o inimigo não espera.
Nem tudo, porém, era templo e brincadeira. Correu no grupo, com aquele tom de fofoca séria que só notícia de banimento consegue ter, que "Badidol" tinha rodado um programa para pegar quem usava script durante o evento. Luiz Henrique "Dragon" trouxe a notícia como quem entrega um boletim de guerra: gente automatizando ataque, mandando mil unidades assim que a missão acabava, sem nem precisar abrir o jogo. Ginno, cronista atento e cético por natureza, resumiu com a elegância de sempre: "é muita inocência usar algo desse tipo... um bot, então." E completou, citando um antigo SGO como quem cita escritura sagrada: "um dia a casa cai." Harvey emendou o verso final: "os inimigos não podem não" — porque para todo mundo que tentava atalho, o Ikariam tinha memória, e a memória do Ikariam, gente, é maior do que a de qualquer cemitério de contas.
E enquanto script era rumor de guerra, Neiva Simas trazia história de arrepiar: contou que já tinha levado ban lá no Acheron, num tempo em que a sede do jogo ficava na Alemanha — "os documentos enviei para a Alemanha, termo de confidencialidade e tudo", lembrou Ginno, revelando de leve uma vida secreta de ex-operador do jogo, do tempo em que a sede era em Portugal e tudo era "mais fácil". Neiva confirmou, com saudade: depois que foi para a Inglaterra, complicou. Foi nessa mesma conversa que Neiva, distraída, mandou mensagem para uma amiga achando que era Ginno, perguntando se ele era GO. A amiga não fazia a menor ideia do que era isso. Ginno, se divertindo com a confusão, revelou: "tem um aqui no grupo." Neiva, em pânico cômico instantâneo, respondeu só: "vixe, tem agora, fiquei com medo."
No meio de tudo isso — vitória contra a AW, Sextou de Lobão, Colosso em enquete, script sendo caçado, Neiva confundindo amiga com o próprio grupo — a vida seguia seu curso banal e sagrado: alguém perguntava se o Porto tinha ganhado, António Carneiro respondia com o placar exato, Ginno lamentava o próprio time "goleado", e a manhã da SUITs recomeçava, como sempre, com aquele "Bom dia!" em negrito que já virava tradição de abertura de capítulo.
Fates, que na Parte anterior tinha aprendido a ficar em silêncio, agora sabia gritar de novo. Não porque tinha esquecido o cansaço — esse ainda rondava, escondido atrás de cada "kkk" mais curto do que devia — mas porque a matilha, goste-se ou não, sempre encontra motivo para uivar. Um Colosso mal-amado numa enquete. Um vingador de FEED prometendo choro alheio. Um script pego no flagra. Um GO aposentado confundido com um fantasma do passado. E, no fim de tudo, um áudio de assobio, disparado numa sexta-feira, lembrando a todos que, tretas à parte, ali ainda existia manada.
Sempre de terno.
Sempre em matilha.
Sextou.
Com o trato assinado contra a AW, a SUITs volta a uivar: Harvey celebra a matilha, Luiz Buscapé persegue sua vingança pessoal contra FEED, Ginno abraça a Teocracia entre enquetes de milagres, um caçador de scripts assombra o evento e Neiva revive memórias de banimentos e confusões de GO. Fates aprende que, mesmo cansado, o grupo sempre encontra motivo para uivar.